sexta-feira, 17 de julho de 2009

Impressões da 9ª Feira do Livro de Ribeirão

A 9ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto reuniu autores, músicos, atores e chefs gastronômicos entre os dias 18 e 28 de junho. Nos onze dias de evento, mais de 100 autores passaram pela feira e 25 shows foram realizados, além de apresentações teatrais e exibições de filmes. Tudo aconteceu na praça, a céu aberto, de graça.

Na quinta-feira, 25, assisti a duas palestras. A primeira foi de Pedro Bandeira. Talvez a associação do nome à pessoa não seja prontamente feita, mas, se eu disser algumas de suas obras, certamente o leitor saberá quem a quem me refiro. Autor de a “A Droga da Obediência” e “O Fantástico Mistério de Feiurinha”, Bandeira terá, neste ano, toda sua obra republicada e, em dezembro, será lançado o filme de “O Fantástico Mistério de Feiurinha”.

Pedro Bandeira

O mais interessante dessa palestra foi perceber que o autor não só escreve histórias infantis, mas também sabe conversar com o seu público-leitor. As crianças – a maioria da região – dominaram o Theatro Pedro II e, ao abrirem espaço para perguntas, nunca vi tantas crianças erguendo as mãos e interessadas no que um escritor – um ídolo naquele momento – havia para dizer.

Fiquei realmente muito contente em ver as escolas incentivando a leitura e o passeio cultural. As crianças provaram ter lido e estavam interessadas nas obras. Enfim, isso é o que melhor representa e qualifica um evento como este.

Luiz Puntel e Pedro Bandeira

Para ilustrar, publico um vídeo da resposta de Pedro Bandeira à pergunta de uma menininha de não mais de 6 anos. Ela quis saber: “o que é preciso para ser um bom escritor?” Vejam o que ele respondeu.


Logo em seguida, com o fim da palestra, me direcionei à sala ao lado do teatro para assistir à Cristovão Tezza. O autor respondeu primeiramente às perguntas do mediador, o escritor Menalton Braff, e depois o público pôde rapidamente falar.

Se Tezza foi sucinto nas respostas às minhas perguntas por email, no evento, Tezza contou várias estórias, mas pouco falou sobre “O filho eterno” – talvez porque não tenha surgido uma pergunta sobre o livro. Pareceu-me haver certo interesse de todos ali presentes em mostrarem-se conhecedores de outras obras do autor, além do grande sucesso de vendas e de críticas.

O escritor falou sobre ter uma profissão – a de professor, no seu caso – para sobreviver e poder, enfim, viver de literatura. Segundo ele, “o escritor não é uma função como médico, advogado, encanador. (...) São figuras errantes, fora do sistema. Está pronto, quando está pronto, mas, até ele chegar lá, até ele ter essa pegada de dizer “é isso que eu quero fazer”, ele tem que sobreviver de alguma forma”.

Falou também sobre “Trapo”, seu primeiro livro, e comentou a engraçada estória envolvendo Paulo Leminski, autor do posfácio deste volume. Contou sobre um incidente desagradável envolvendo seu livro “Aventuras Provisórias”, em Santa Catarina e revelou de onde vem sua inspiração.

Cristovão Tezza

Surgiu ainda uma citação sobre algo que eu havia lhe perguntado: o fato de estar fora do eixo Rio-São Paulo e – talvez para não sair com a sensação de não ter falado de sua principal obra - comentou brevemente sobre sua necessidade de escrever “sobre o fato mais importante de sua vida, que foi ter um filho com Síndrome de Down”, afirmou.

A experiência de acompanhar duas palestras seguidas sobre assuntos diferentes, com escritores diferentes, me mostrou ser verdadeira a tese que quase todo professor de jornalismo nos ensina: talvez, a pergunta que parece ser a mais óbvia, se torna a mais reveladora. Com as crianças, surgiram perguntas simples, por vezes óbvias, que se mostraram interessantes; os adultos, fugindo do grande-tema, tentaram relacionar o Tezza a personagens de outros livros (embora sejam evidentes e, de certa forma, comprovadas as semelhanças com o pai de “O filho eterno”), além de criarem perguntas relacionadas à sua profissão de professor universitário.

Para finalizar, preparei um pequeno áudio de 3min50seg com a história divertida de Leminski e Tezza sobre o posfácio de “Trapo”. Divirtam-se e até a próxima.

Momento tiete: pegando autógrafo do autor.

sábado, 11 de julho de 2009

Entrevista - Cristovão Tezza

Cristovão Tezza tem sido freqüentemente convidado para diversos eventos sobre literatura. O escritor catarinense ganhou notoriedade ano passado por seu livro “O filho eterno”, vencedor de cinco prêmios: Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), Portugal-Telecom, Jabuti, Bravo! e São Paulo de Literatura.

Recentemente o autor esteve presente na 9ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto e, antes de encontrá-lo na palestra, realizei por email uma interessante entrevista com Tezza, que se mostrou bastante simpático e disponível.


Foto: Divulgação


Quando e por que o senhor começou a escrever?
Cristovão Tezza: Comecei a escrever nos meus 13, 14 anos - não sei exatamente por quê. Essa é uma pergunta muito difícil para um escritor. Escrever é uma espécie de resposta ao mundo - mas nisso cabe um pouco de tudo.

Quais são suas principais referências na literatura?
CT: As referências foram se fazendo ao longo da vida. No Brasil, Machado, Graciliano e Drummond; lá fora, Dostoiévski, Conrad, Camus, Coetzee. Para ficar em algumas poucas (mas fortes) referências.

Por que o senhor resolveu escrever "O filho eterno"?
CT: Não queria passar a minha vida sem escrever sobre o fato mais impactante da minha vida: o nascimento de um filho especial. De uns anos para cá, comecei a sentir a urgência de enfrentar esse tema terrivelmente difícil.

Antes de "O filho eterno" o senhor já havia escrito outros livros também premiados. Por que o senhor acha que somente com "O filho eterno" ganhou tamanha notoriedade?
CT: A notoriedade é um processo cumulativo, digamos assim. Eu já era bastante conhecido nos meios literários. O sucesso do último livro encontrou o caminho já pavimentado para aparecer bastante.

O senhor acredita que a demora no reconhecimento da sua produção literária se deve ao fato de o senhor estar fora do eixo Rio-SP, como chega a sugerir o "pai" de "O filho eterno"?
CT: Num certo momento, sim. Ao longo dos anos 80 e 90 estar fora do eixo conspirava contra qualquer escritor. Mas a era da internet mudou radicalmente essa “maldição”.

A escolha em fazer uso de um narrador em terceira pessoa fez parte de uma estratégia para criar distanciamento daquela narrativa, como chegaram a sugerir alguns críticos?
CT: Sim. O narrador em terceira pessoa foi a chave para eu conseguir enfrentar o tema. Continuei próximo de mim mesmo, mas visto de longe, o que muda tudo.

"Condenável no cotidiano, a crueldade pode ser uma virtude literária. Ela é a grande qualidade de 'O filho eterno'". Jerônimo Teixeira, da Veja. Este excerto está na contracapa do livro. O senhor acha que o que está em jogo na relação entre o pai e o filho da história é a crueldade? Como o senhor a definiria?
CT: Toda relação humana tem uma dose de violência, crueldade, incompreensão e impossibilidade. Em torno dessa aura gira a boa literatura - tentar decifrar a difícil convivência entre os homens. No caso de “O filho eterno”, a crueldade é apenas um dos aspectos, em alguns momentos, mas um aspecto bastante intenso. Mas eu não definiria o livro por esse viés.

Como seus parentes e as pessoas próximas ao senhor encararam o livro?
CT: Todo mundo gostou muito. Eu só o escrevi porque o meu filho não tem a abstração da leitura (o que é outro eixo do livro). Claro que se ele lesse, tivesse linguagem sofisticada o suficiente para compreender as implicações da narrativa, eu seria outra pessoa e o livro seria outro, completamente diferente.

Num próximo post, eu conto sobre a feira, publico fotos do evento e trago um “extra” pra complementar a matéria.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Cristovão Tezza na FLIP 2009



É inegável que a cobertura da FLIP deste ano está fantástica. Com certeza é a cobertura mais “multimídia” da festa, que já está na sua sétima edição. Primeiro o blog e o site que nos trouxeram, em primeira mão, desde o inicio do ano, as informações da programação. A cada convidado confirmado um novo post e, é claro, a cada cancelamento a informação de quem seria o substituto. Porém, outro advento da internet que “estourou” esse ano não podia faltar na cobertura da Festa Literária: o twitter. Uma ferramenta que permitiu uma nova forma de divulgação do evento. Seus “seguidores” podem saber de maneira rápida e enxuta – principal característica do micro blog – notícias diretamente da FLIP.

Mas as novidades da cobertura de 2009 não param por aí. O que me deixou mais animada - e menos triste por não estar na festa - foi que todas as mesas seriam transmitidas ao vivo pelo portal G1 e pelo próprio site da FLIP.

Acabo de ver a mesa 9 cujo tema foi “o eu profundo e o outros eus”. Participaram da conversa o escritor mexicano Mario Bellatin - considerado um dos principais escritores latino-americanos contemporâneos e que chamou a atenção da crítica com a publicação de Flores (2001) - e o escritor catarinense Cristovão Tezza.

Tezza foi reconhecido pelo público e ovacionado pela crítica em 2007 com o lançamento de O filho eterno, romance baseado na relação com um de seus filhos portador de Síndrome de Down. A obra recebeu os prêmios Portugal Telecom, Bravo!, Jabuti de 2008, APCA 2007, Prêmio São Paulo de literatura, foi publicado na Itália e será traduzido para inglês, francês e espanhol.

O filho eterno
foi uma das obras que li e, por isso, estava muito ansiosa para assistir uma mesa com um autor que “conheço” e que falaria, pelo menos um pouco, de um livro que discutimos em aula. Como de costume, a conversa se inicia com cada um dos convidados lendo um trecho de suas obras mais recentes, ou aquela que tem mais a ver com o tema da mesa. Eu já estava com meu exemplar de O filho eterno na mão pronta para ouvir um trecho que me lembraria a narrativa do livro. Porém uma surpresa: Tezza leu um trecho do seu novo livro, que ainda não foi lançado.

O papo continuou e o autor não falou muito do seu premiado livro. Fato explicado talvez pelo tema da mesa que era “o eu profundo e outros eus” e não “o filho eterno”. Mas quem já leu o livro sabe que é possível identificar semelhanças entre a obra e o tema proposto. O filho eterno é um romance considerado extremamente autobiográfico, portanto o “profundo eu” do autor.

Tezza afirmou em entrevistas que começou a escrever o livro em primeira pessoa, mas a escrita só decolou mesmo quando mudou a narrativa para a terceira pessoa. Ainda nesse assunto, foi questionado sobre até que ponto a experiência pessoal é importante na ficção. Sua resposta mostrou que ainda é muito difícil a mistura da ficção com a realidade. “Levei 20 anos para escrever sobre esse tema. Problema pessoal não é literatura, o problema teve que desaparecer da minha vida para surgir a obra.” Disse também que teve que se afastar para conseguir escrever: “Só consegui escrever quando criei o personagem narrador que não era mais o Cristovão.”

Entre os duradouros – e interessantes – relatos de Bellatin, Tezza falou que só “sentiu” diretamente os leitores quando começou a escrever crônicas em um jornal de Curitiba. “O ato de escrever para uma coluna de jornal pressupõe uma responsabilidade que não existe quando você escreve livros”, afirmou Tezza. Ele explica que no jornal você tem regras como tamanho do texto e determinados temas, além de um retorno direto dos leitores através de e-mails. Ao escrever um livro, não se tem esse retorno imediato, sem contar que o tema é escolhido pelo autor “escrevo um livro que eu gostaria de ler”, comentou.

Ambos os convidados deram relatos interessantes, foi mais uma mesa agradável e gostosa de assistir. Porém, senti falta do convidado falar mais sobre seus livros, em especial o tão comentado O filho eterno.